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XIX Jogos Olímpicos
1968 - Cidade do México (México)

Da Redação

Final dos 200 m rasos. Após largar mal, o norte-americano Tommie Smith parece ignorar sua contusão na coxa, reage e vence a prova. Melhor ainda, bate o recorde mundial da distância. Em segundo lugar ficara o australiano Peter Norman e o bronze vai para outro estadunidense, John Carlos. Na cerimônia de premiação, o inusitado. No momento em que soam as primeiras notas do hino dos Estados Unidos, os dois norte-americanos, já usando broches do movimento negro em seus agasalhos, abaixam a cabeça e erguem um punho cerrado, devidamente vestido por uma luva preta. O gesto do movimento Black Power era feito diante de todos, sem que ninguém pudesse impedir. Não naquele momento.

Foi mais ou menos esse o espírito dos Jogos Olímpicos de 1968. Claro, o ano já diz muita coisa. Manifestações explodiam por toda parte. Em Paris, estudantes enfrentaram policiais. Na Tchecoslováquia o governo tentou se afastar de Moscou na que ficou conhecida como “Primavera de Praga”. Mesmo no México aconteceram manifestações. Na capital do país, 10 dias antes dos Jogos, 10 mil estudantes ocuparam a Plaza de las Tres Culturas para protestar contra a ocupação de militares em duas universidades públicas. O mundo queria mudar.

Muitos eram os contrários a tais mudanças. A União Soviética invadiu Praga e acabou com as esperanças de autonomia do governo tchecoslovaco. O líder negro Martin Luther King foi assassinado. E as autoridades mexicanas entraram em choque com os estudantes, o que resultou em um número não-oficial de 300 mortos. No esporte também não foi diferente, com reações repressoras. John Carlos e Tommie Smith foram expulsos da delegação norte-americana, mas mantiveram suas medalhas.

A questão negra nas Olimpíadas da Cidade do México não se limitou aos dois velocistas. Meses antes do evento, o presidente do COI -o norte-americano Avery Brundage, conhecido por, digamos, não ser muito simpático às pessoas de origem africana- sinalizou com uma readmissão da racista África do Sul. A União Soviética liderou, ao lado de 32 nações africanas, uma ameaça de boicote. Claro, a África do Sul saiu da pauta.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, intelectuais do movimento negro articulavam um boicote aos Jogos, uma forma de protestar com os preconceitos que sofriam no próprio país. Acabou não dando certo, mas inflamaram atletas de origem africanas. E não foram apenas Smith e Carlos.

Nos 400 m rasos, os três medalhados eram norte-americanos negros. Sem poder protestar de forma tão acintosa quanto os velocistas (já que poderiam levar a mesma punição), eles vestiram um simbólico gorro preto na cerimônia de premiação. No revezamento 4 x 100 m rasos, a equipe cubana doou suas medalhas de prata para o líder negro norte-americano Stokeley Carmichael.

Porém, o negro dos Estados Unidos que mais chocou durante as Olimpíadas mexicanas foi outro. Bob Beamon assombrou ao bater o recorde mundial do salto em distância em mais de meio metro. Os 8,90 m atingidos pelo nova-iorquino foram tão importantes que seu salto até hoje é a imagem dos Jogos de 1968.

A marca desnorteou seus adversários. A medalha de prata ficou com o pouco cotado alemão-oriental Klaus Beer, com “apenas” 8,19 m. O então recordista mundial Ralph Boston foi bronze, com 8,13 m. Beamon foi outro dos que aproveitou para protestar. Subiu ao pódio com as calças arregaçadas, fazendo questão de mostrar suas meias pretas.

Recordes como o de Beamon e o de Tommie Smith tiveram auxílio da altitude da capital mexicana. A 2.240 m acima do mar, a Cidade do México possui ar rarefeito, que sempre proporciona menos resistência aerodinâmica para velocistas e saltadores e tira o oxigênio essencial às longas provas de fundo. Nessas, aliás, foi visto pela primeira vez um domínio real dos africanos, com Kip Keino liderando a equipe queniana e Mamo Wolde levado medalhas para a Etiópia.

As competições de saltos dos Jogos de 1968 foram especiais. Além da façanha de Beamon na distância, as Olimpíadas mexicanas viram o início do domínio de Viktor Saneyev no triplo, o que atrapalhou -e muito- as pretensões brasileiras nessa prova, e a inovação de Dick Fosbury na altura. O norte-americano levou o ouro saltando de costas para o sarrafo, técnica que leva o nome de “Salto Fosbury” e é empregada por todos os saltadores em altura hoje.

Fora do atletismo também houve destaques. A tchecoslovaca Vera Cáslavská voltou a dominar a ginástica com quatro títulos. O feito tem mais vulto pelo risco que ela correu de nem participar dos Jogos. Cáslavská assinou um manifesto anti-União Soviética na esteira da “Primavera de Praga”. Com a intervenção soviética, a ginasta teve de se esconder. Foi perdoada pouco antes das Olimpíadas, mas se casou e encerrou a carreira dias depois dos Jogos, antes mesmo de deixar o México.

No futebol, a Hungria mostrou que havia superado o êxodo da maravilhosa equipe da década anterior e conquistou o primeiro bicampeonato olímpico desde o Uruguai nos anos 20. No boxe, aparecia o norte-americano George Foreman, campeão dos pesos pesados nos anos 70 e 90. Na natação, Debbie Meyer, dos Estados Unidos, foi a primeira a conquistar três medalhas de ouro individuais na modalidade. Com apenas 16 anos. No final, os Estados Unidos bateram com folga a União Soviética por 45 x 29 em medalhas douradas.

O Brasil também apresentou alguns destaques. É verdade que o número de medalhas (três) foi baixo. Mas Nélson Prudêncio mostrou que o país tinha um digno sucessor de Adhemar Ferreira da Silva no salto triplo ao ficar com a prata. O peso mosca Servílio de Oliveira conquistou um bronze, a única medalha olímpica brasileira no boxe até hoje. E Reinaldo Conrad e Burkhard Cordes iniciaram a longa tradição brasileira de medalhistas de nomes exóticos no iatismo com outro terceiro lugar.

Além das manifestações políticas, os Jogos da Cidade do México foram marcados pelo início de dois exames realizados até hoje: antidoping nos principais atletas e teste de feminilidade nas competidoras.

          Quadro de medalhas:

País

Ouro Prata Bronze
1. Estados Unidos 45 28 34
2. União Soviética 29 32 30
3. Japão 11 7 7
4. Hungria 10 10 12
5. Alemanha Oriental 9 9 7
6. França 7 3 5
7. Tchecoslováquia 7 2 4
8. Alemanha Ocidental 5 11 10
9. Austrália 5 7 5
10. Grã-Bretanha 5 5 3
11. Polônia 5 2 11
12. Romênia 4 6 5
13. Itália 3 4 9
14. Quênia 3 4 2
15. México 3 3 3
16. Iugoslávia 3 3 2
17. Holanda 3 3 1
18. Bulgária 2 4 3
19. Irã 2 1 2
20. Suécia 2 1 1
21. Turquia 2 0 0
22. Dinamarca 1 4 3
23. Canadá 1 3 1
24. Finlândia 1 2 1
25. Etiópia 1 1 0
26. Noruega 1 1 0
27. Nova Zelândia 1 0 2
28. Tunísia 1 0 1
29. Venezuela 1 0 0
30. Paquistão 1 0 0
31. Cuba 0 4 0
32. Áustria 0 2 2
33. Suíça 0 1 4
34. Mongólia 0 1 3
35. Brasil 0 1 2
36. Bélgica 0 1 1
37. Coréia do Sul 0 1 1
38. Uganda 0 1 1
39. Jamaica 0 1 0
40. Camarões 0 1 0
41. Argentina 0 0 2
42. Grécia 0 0 1
43. Índia 0 0 1
44. Taiwan 0 0 1




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