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XXII Jogos Olímpicos
1980 - Moscou (União Soviética)

Da Redação

Não foi em Moscou que o boicote começou a ser usado como mecanismo de pressão política em Jogos Olímpicos. Afinal, com ou sem razão, africanos, chineses e os próprios soviéticos falaram nisso nas vésperas de edições do evento. Inclusive, os africanos obtiveram uma vitória. Em 1980, a Rodésia (rebatizada de Zimbábue) participou das Olimpíadas, já que acabara com o regime de apartheid. Pois, dessa vez, foram os Estados Unidos que falaram em ignorar o evento.

Em 1979, a União Soviética interveio militarmente no instável Afeganistão. Como era de se esperar, a invasão soviética não foi uma simples “missão de paz” em busca do fim dos conflitos internos do país vizinho. A maior nação do mundo aproveitou a oportunidade para aumentar sua influência no Oriente Médio e, quem sabe, se aproximar do Oceano Índico, o que seria muito proveitoso comercial e politicamente.

Como, naquela época, os norte-americanos tinham outros interesses na região e invadir o Afeganistão não era admissível, o governo de Washington reagiu. O presidente Jimmy Carter liderou um movimento internacional de repúdio à ação soviética. Por baixo dos panos, treinou grupos paramilitares para combater as tropas soviéticas. No lado esportivo, ameaçou não enviar nenhum atleta às Olimpíadas moscovitas. Ninguém levou muito a sério. Afinal, havia enormes interesses financeiros por trás.

Os Estados Unidos preparavam seus atletas como nunca, para retomar a hegemonia olímpica na casa do maior rival. Seletivas internas foram feitas e a televisão já comprara os direitos de transmissão dos eventos. Mas era ano eleitoral e Carter bateu o pé. Alguns atletas norte-americanos tentaram ir por conta própria, mas o governo ameaçou caçar seus passaportes. Os Estados Unidos estavam fora dos Jogos Olímpicos e incentivavam seus aliados políticos a fazer o mesmo.

A mobilização dos norte-americanos foi relativamente bem-sucedida, se é que se pode falar nesses termos quando o assunto é boicote. Não mandaram representantes a Moscou países como Alemanha Ocidental, Japão, Canadá, Quênia, Israel, Coréia do Sul, Noruega, Turquia, Argentina, Portugal, Síria, Irã, Gana e Egito, além de uma série de pequenas nações com relações muito próximas dos Estados Unidos. No total, 61 nações ficaram de fora.

O nível técnico caiu muito em alguns esportes, como atletismo e natação. E só não foi pior porque vários aliados norte-americanos importantes mandaram atletas aos Jogos. Os governos de Grã-Bretanha, Austrália, França, Itália, Espanha, México, Holanda, Bélgica, Dinamarca e Suécia se pronunciaram contra a invasão, mas deixaram os comitês olímpicos nacionais decidirem sobre os convites para participar das Olimpíadas. E todos acharam melhor não misturar esporte com política internacional.

Mesmo com esses países, foi um festival dos comunistas. A União Soviética foi suprema, com 80 medalhas de ouro. A única delegação com um número proporcionalmente relevante foi a Alemanha Oriental, com 47 títulos. Em seguida apareceu a improvável Bulgária e a potência emergente Cuba. O primeiro concorrente capitalista foi a Itália, em 5º lugar, seguido por Hungria e Romênia.

O massacre não se deu apenas pela falta da concorrência norte-americana, japonesa, alemã-ocidental e queniana. Mas também porque a organização fez um grande esforço para que os comunistas -de preferência a União Soviética- ganhassem tudo. Notas na ginástica e nos saltos ornamentais foram contestadas, arbitragens foram duvidosas e a torcida não poupou vaias aos estrangeiros.

O clima dos Jogos também era estranho. A organização foi impecável e, nas cerimônias de abertura e encerramento, sobraram sensibilidade e bom gosto. Por exemplo, nenhum mascote olímpico chegou perto do urso Misha em carisma. Tudo muito bem feito. O problema era a vigilância doentia. Os atletas só podiam sair da vila olímpica com o acompanhamento de um segurança da KGB (polícia secreta do regime de Moscou). Tudo para evitar contato demasiado com os moscovitas.

Mas nem o favorecimento ou a intimidação tiram os méritos de alguns atletas. O ginasta da casa Aleksander Dityatin foi o único atleta da história a levar oito medalhas em uma só edição das Olimpíadas. Outro soviético, Vladimir Salnikov, foi vencedor em três provas da natação. Teófilo Stevenson igualou Laszlo Papp e foi tricampeão no boxe. Pietro Mennea mostrou que era o melhor do mundo nos 200 m rasos. E os britânicos Steve Ovett e Sebastian Coe protagonizaram um emocionante duelo nos 800 e 1.500 m rasos.

O Brasil também se destacou. Pela primeira vez desde Adhemar Ferreira da Silva em 1956, o país conquistou uma medalha de ouro. Ou melhor, duas, ambas no iatismo. Alex Welter e Lars Björkström (o segundo um sueco naturalizado) foram os melhores na classe tornado, enquanto Marcos Soares e Eduardo Penido surpreenderam na classe 470. No revezamento 4 x 200 m nado livre a equipe brasileira foi terceiro lugar e, para não perder o costume, mais uma medalha no salto triplo, com o bronze de João do Pulo. Colocação, aliás, muito contestada pelos brasileiros. Seria mais uma das competições em que os árbitros foram “generosos” com os atletas da casa.

Uma curiosidade final. De certa forma, pode-se dizer que as Olimpíadas de 1980 foram disputadas em dois países, como a de 1956. Como Moscou não tem litoral ou algum local propício para o iatismo, as competições dessa modalidade foram realizadas em Tallinn, no mar Báltico. Na época, era tudo União Soviética. Hoje, Moscou é a capital da Rússia, enquanto Tallinn abriga o governo da Estônia.

          Quadro de medalhas:

País

Ouro Prata Bronze
1. União Soviética 80 69 46

2. Alemanha Oriental

47 37 42
3. Bulgária 8 16 17
4. Cuba 8 7 5
5. Itália 8 3 4
6. Hungria 7 10 15
7. Romênia 6 6 13
8. França 6 5 3
9. Grã-Bretanha 5 7 9
10. Polônia 3 14 15
11. Suécia 3 3

6

12. Finlândia 3 1

4

13. Tchecoslováquia 2 3

9

14. Iugoslávia 2 3

4

15. Austrália 2 2

5

16. Dinamarca 2 1

2

17. Brasil 2 0 2
18. Etiópia 2 0 2
19. Suíça 2 0 0
20. Espanha 1 3 2
21. Áustria 1 2 1
22. Grécia 1 0 2
23. Índia 1 0 0
24. Bélgica 1 0 0
25. Zimbábue 1 0 0
26. Coréia do Norte 0 3 2
27. Mongólia 0 2 2
28. Tanzânia 0 2 0
29. México 0 1 3
30. Holanda 0 1 2
31. Irlanda 0 1 1
32. Uganda 0 1 0
33. Venezuela 0 1 0
34. Jamaica 0 0 3
35. Líbano 0 0 1
36. Guiana 0 0 1




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