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XXIV Jogos Olímpicos
1988 - Seoul (Coréia do Sul)

Da Redação

Curiosa ironia. As Olimpíadas de Seul foram as últimas a efetivamente viver sob o clima de Guerra Fria e rivalidade entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética (essa última coadjuvada pela Alemanha Oriental). Justamente na Coréia do Sul, país que, oficialmente, estava em guerra. Uma guerra que começara -e terminara na prática- nos anos 50 e inaugurara os conflitos armados entre comunistas e capitalistas.

Os conflitos bélicos na Coréia foram encerrados quando as tropas norte-americanas conseguiram expulsar o exército da Coréia do Norte da metade sul da península em 1953. Mas a paz nunca foi efetivamente assinada. Até hoje. Essa rivalidade ajudou a criar uma atribulada política da região. Mesmo a metade capitalista, que prosperou rapidamente com o apoio dos norte-americanos, convivia com as inconstâncias de seus governos ditatoriais e pouco tolerantes.

O medo de que os Jogos sofressem com tal instabilidade era grande. Felizmente, o receio da comunidade internacional não se confirmou. O evento foi muito bem organizado, sem grandes contratempos e permitindo que os atletas pudessem competir sem grandes interferências. Principalmente norte-americanos e soviéticos, que mediam forças após duas Olimpíadas com boicotes.

Para ser preciso e não dizer que os Jogos de Seul estiveram livres de ausências por motivações políticas, a Coréia do Norte não mandou nenhum atleta, descontente que estava por não sediar nenhuma prova olímpica. Em solidariedade, Cuba também não foi. Ainda ficaram de fora, por razões diversas, Etiópia, Nicarágua, Albânia, Madagascar e Ilhas Seychelles. Cuba e Etiópia brigariam por medalhas, mas não se pode dizer que o nível técnico dos Jogos tenha sido muito prejudicado.

O que mais interferiu negativamente foi o doping. Ao todo, sete atletas foram desclassificadas por uso de substâncias proibidas. Nenhum foi tão marcante quanto o do velocista canadense Ben Johnson. Após o bronze de Los Angeles, o corredor foi melhorando seus tempos. Já era imbatível nos 100 m rasos -prova da qual detinha o recorde mundial- e chegou a Seul como favorito destacado. Nem Carl Lewis conseguia acompanhar as passadas de Johnson.

Pois, em Seul, Ben Johnson foi pego no exame antidoping após conquistar o ouro nos 100 m rasos e bater o recorde mundial com impressionantes 9s79. Sua medalha foi cassada e a marca, claro, invalidada. O escândalo foi enorme porque, no fundo, apenas escancarou o que muitos queriam ignorar: o desempenho de vários atletas poderia ser fabricado artificialmente e que muitos casos de doping nunca foram e nem serão descobertos.

Em Seul mesmo houve dois exemplos patentes. A também velocista Florence Griffith-Joyner era uma das melhores dos Estados Unidos, mas sempre ficava atrás da compatriota Evelyn Ashford. Em 1987, subitamente, Florence passou a dominar as provas e a baixar de forma assustadora o recorde mundial dos 100 m rasos femininos. A suspeita de uso de substâncias proibidas nunca foi confirmada.

Situação semelhante com a da nadadora Kristin Otto, da Alemanha Oriental. Ganhadora de seis medalhas de ouro em Seul (quase uma Mark Spitz mulher), seria mais um produto da medicina esportiva do lado comunista do Muro de Berlim. Depois da reunificação alemã, revelou-se que muitas das medalhas da parte oriental tinham ajuda de drogas. Mas Otto sempre negou consumir tais substâncias.

Ainda na natação, o norte-americano Matt Biondi esteve próximo de igualar as sete vitórias de Mark Spitz. Só não o fez porque perdeu duas provas, uma para o australiano Duncan Armstrong e outra para o surpreendente surinamês Anthony Nesty, o primeiro negro da história olímpica a ganhar um ouro na natação. Mas nem as conquistas de Biondi ajudaram os Estados Unidos a bater a União Soviética. Pior, a Alemanha Oriental, como já fizera em 1976, também recebeu mais ouros que os norte-americanos.

Poucos imaginavam que União Soviética e Alemanha Oriental se despediam das Olimpíadas. O que não quer dizer que os Estados Unidos passaram a dominar soberanamente as medalhas, pois Rússia e Alemanha continuaram fortes. De qualquer forma, era o fim de um período importante na história dos Jogos.

E o início efetivo do profissionalismo. Após décadas de ausência, o popular e difundido tênis voltou às Olimpíadas, usando atletas do circuito profissional. Os ouros foram para a alemã-ocidental Steffi Graff, que bateu a argentina Gabriela Sabatini na final, e o tchecoslovaco Miroslav Mecir.

O aumento do nível técnico dos Jogos mostrou que o desempenho brasileiro foi bom. Tivemos apenas seis medalhas (duas a menos que em Los Angeles), sendo uma solitária de ouro (menos que em Moscou). Mas foi possível avaliar o real estágio do esporte olímpico brasileiro, sem as facilidades decorrentes de boicotes políticos. Claro, seis medalhas representam pouca coisa, mas é uma melhora grande se lembrarmos dos dois bronzes de Montreal, o último evento olímpico sem boicotes disputado até então.

O único ouro brasileiro foi do judoca Aurélio Miguel. As pratas ficaram com Joaquim Cruz e a seleção de futebol, favorita para o ouro na final contra a União Soviética. Com o bronze ficaram Róbson Caetano no atletismo e as duplas de iatistas Torben Grael e Nélson Falcão e Lars Grael e Clínio de Freitas.

          Quadro de medalhas:

País

Ouro Prata Bronze
1. União Soviética 55 31 46
2. Alemanha Oriental 37 35 30
3. Estados Unidos 36 31 27
4. Coréia do Sul 12 10 11
5. Alemanha Ocidental 11 14 15
6. Hungria 11 6 6
7. Bulgária 10 12 13
8. Romênia 7 11 6
9. França 6 4 6
10. Itália 6 4 4
11. China 5 11 12
12. Grã-Bretanha 5 10 9
13. Quênia 5 2 2
14. Japão 4 3 7
15. Austrália 3 6 5
16. Iugoslávia 3 4 5
17. Tchecoslováquia 3 3 2
18. Nova Zelândia 3 2 8
19. Canadá 3 2 5
20. Polônia 2 5 9
21. Noruega 2 3 0
22. Holanda 2 2 5
23. Dinamarca 2 1 1
24. Brasil 1 2 3
25. Espanha 1 1 2
26. Finlândia 1 1 2
27. Turquia 1 1 0
28. Marrocos 1 0 2
29. Áustria 1 0 0
30. Suriname 1 0 0
31. Portugal 1 0 0
32. Suécia 0 4 7
33. Suíça 0 2 2
34. Jamaica 0 2 0
35. Argentina 0 1 1
36. Antilhas Holandesas 0 1 0
37. Chile 0 1 0
38. Costa Rica 0 1 0
39. Indonésia 0 1 0
40. Irã 0 1 0
41. Ilhas Virgens 0 1 0
42. Senegal 0 1 0
43. Peru 0 1 0
44. México 0 0 2
45. Bélgica 0 0 2
46. Colômbia 0 0 1
47. Djibuti 0 0 1
48. Mongólia 0 0 1
49. Grécia 0 0 1
50. Filipinas 0 0 1
51. Paquistão 0 0 1
52. Tailândia 0 0 1




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