Os Jogos Olímpicos são tão grandes que praticamente não encontram espaço para o esporte mais popular do mundo, a ponto de são serem raros comentários a respeito da saída do futebol do programa olímpico. Com o Brasil de fora da disputa do ouro entre os homens, o esquecimento da modalidade tende a ser ainda maior por aqui.
Futebol e Olimpíadas nunca se deram muito bem. Com a introdução do profissionalismo no esporte, processo que teve muita força na década de 1930, os principais jogadores ficaram alijados do evento poliesportivo. Os jogos se tornaram quase um campeonato interno dos países comunistas da Europa. Sem profissionais assumidos, Hungria, União Soviética, Polônia, Bulgária e Alemanha Oriental monopolizaram as medalhas douradas entre 1952 e 1980.
Enquanto isso, as reais potências, como Brasil, Itália, Alemanha Ocidental, Argentina e Uruguai, eram obrigadas a se apresentar com times amadores (leia-se juniores). Pior ainda acontece com a Inglaterra. Em esportes coletivos, os britânicos se dividem (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e Gales). Porém, o COI reconhece apenas a Grã-Bretanha, união dos quatro países. Como os ingleses são fracos em basquete, vôlei, beisebol e pólo aquático e não há rúgbi e críquete no programa olímpico, essa restrição não causa grandes transtornos.
Isso acontece apenas com o futebol e com o hóquei sobre grama. O Campeonato Europeu sub-21 é classificatório para as Olimpíadas. Como não há representação unida da Grã-Bretanha, se uma seleção daquelas ilhas chegar à final, perde a vaga olímpica para a que vier logo atrás. Foi o que ocorreu em 1996, quando a Hungria foi a Atlanta no lugar da Escócia. Caso Londres ganhe a disputa para sediar os jogos de 2012, já há um plano para montar equipes britânicas em esportes coletivos.
Com todos esses problemas, não é de se estranhar que o Brasil nunca tenha conquistado um ouro no futebol. A bem da verdade, os outros grandes do futebol mundial também enfrentam sérias dificuldades nas Olimpíadas. Argentina e Alemanha/Alemanha Ocidental (a Oriental foi vencedora nos Jogos de 1976) estão ao lado do Brasil, sem ouro algum. Os uruguaios foram campeões nos longínquos 1924 e 1928 e a Itália levou em 1936. A Grã-Bretanha foi campeã nas primeiras Olimpíadas, quando equipes colegiais disputavam as medalhas.
A partir de 1984, o COI foi mais permissivo com os profissionais, mas trombou nas restrições impostas pela Fifa (a definição dos atletas e equipes aptos a disputar as Olimpíadas é das entidades que regem as modalidades no mundo). A federação, então presidida por João Havelange, não quis que os Jogos Olímpicos concorressem com a Copa do Mundo. Assim, se não boicotou o futebol olímpico, tratou de atrapalhar.
Em Los Angeles e em Seul, profissionais foram aceitos, desde que nunca tivessem participado de Copas do Mundo de futebol. Foi bom para países que nunca haviam disputado Copas (como a surpreendente Zâmbia de 1988) ou que têm um número grande de atletas de alto nível, como o Brasil. Não é à toa que as melhores participações brasileiras no futebol olímpico (duas pratas) são desse curto período.
O nível técnico do futebol melhorou sem concorrer com a Copa, mas os parâmetros criados favoreciam algumas nações. Por isso, a partir de 1992, a Fifa mudou as regras, tentando algo mais uniforme. As seleções puderam alinhar atletas com, no máximo, 23 anos, com apenas três vagas para atletas mais velhos, independentemente de ter participado ou não de Copas do Mundo. A regra atual abre mais espaço para seleções com boas equipes jovens, como as africanas, as sul-americanas e as do sul da Europa (Espanha, França e Portugal).
Para as mulheres não há restrições. Jogadoras de qualquer idade podem participar, independentemente de terem ou não disputado Copas do Mundo. Por isso, há um domínio de Noruega, Estados Unidos, Alemanha e Suécia, as verdadeiras forças do futebol feminino. No máximo, Brasil e China podem ter alguma esperança.
Um fator com menor influência, mas que também facilita a globalização das medalhas no futebol olímpico entre os homens, é o critério para distribuição de vagas. Ao contrário das Copas, que dão peso aos continentes de acordo com o nível técnico de suas seleções, os Jogos privilegiam o número de países. Por isso, a Ásia e a África têm mais equipes em Atenas do que a América do Sul.
O regulamento do futebol olímpico é simples. No masculino, 16 equipes são divididas, por sorteio, em quatro grupos de igual número de times. Os dois melhores de cada chave passam para a segunda fase, com confrontos eliminatórios de quartas-de-final, semifinais e final. No futebol feminino (que terá a participação brasileira), as oito seleções se dividem em dois grupos de quatro. Os dois melhores passam às semifinais e os vencedores dessa fase fazem a final. |