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Nikos Kazantzákis
Da Redação

Em 2004, a “Paixão de Cristo” de Mel Gibson polemizou, atraiu milhares de pessoas às salas de cinema e rendeu alguns milhões de dólares a seu diretor. Na esteira das discussões, não foram poucos os que lembraram de outra produção relativamente recente que tinha Jesus Cristo como tema: “A Última Tentação de Cristo” (1988), de Martin Scorcese. Mais polêmico, por mostrar um Jesus falível, o filme foi fortemente combatido pela Igreja Católica de vários países.

Mas, se “A Última Tentação...” foi dirigida e estrelada por norte-americanos, o que está fazendo no meio do Guia da Grécia? Simples, Scorcese se baseou no livro homônimo de Nikos Kazantzákis, um dos mais importantes autores gregos do século 20, mostrando que a literatura do país não se limita aos épicos de Homero, como muita gente pode pensar. Aliás, outra obra do escritor também teve bastante sucesso no cinema: “A Vida de Alexis Zorba”, que ficou como “Zorba, o Grego” na versão hollywoodiana que ganhou três Oscars em 1964.

Kazantzákis foi eclético em seu trabalho, escrevendo poemas, romances, ensaios, relatos de viagens, literatura infantil, teatro e até roteiros para cinema. Além de escritor, ele foi considerado um dos principais filósofos e pensadores da primeira metade do século passado, sempre com um perfil existencialista.

O escritor nasceu em 1883, em Megalokastro, na ilha de Creta, que, na época, fazia parte do Império Otomano. Mas Kazantzákis ainda era jovem quando os ilhéus se livraram do domínio turco e se incorporaram à nova Grécia independente que surgia. Na década de 1900, estudou Direito em Atenas e, posteriormente, filosofia em Paris.

 
Nikos Kazantzákis em sua casa, em Aegina. (Divulgação)

Em 1919, era diretor geral do Ministério de Assistência Social e trabalhou na transferência de imigrantes gregos que fugiam da Revolução Bolchevista na Rússia. A partir daí, iniciou uma fase de diversas viagens pelo mundo. Foi justamente o período mais prolífico e inspirado de sua obra. Segundo ele próprio, seu melhor livro foi “Odisséia”, um poema composto por 33.333 versos escrito entre 1924 e 1938, seguindo a estrutura da obra homônima de Homero. Seus romances mais famosos vieram alguns anos depois. “A Vida de Aléxis Zorba” foi publicada em 1946, “Cristo Recrucificado” foi escrito em 1948, três anos antes de “A Última Tentação de Cristo”.

Durante suas viagens, tomou contato com diversas correntes filosóficas, como socialismo, comunismo e nacionalismo. Apesar de admirar muito as idéias de Lênin, Kazantzakis nunca foi muito fiel à militância comunista. Tinha uma visão mais humanista e menos política do mundo, preferindo, assim manter-se aberto a novos conceitos.

Sua relação com a religião sempre foi conturbada, tanto que foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Grega. Ainda que fosse um ateu declarado, Kazantzákis dava muita importância à figura de Cristo, presença constante em seus ensaios e pensamentos. Em “A Última Tentação...”, o escritor retrata um Jesus falível, uma pessoa que vive sob o forte conflito ideologia e dever x desejos e necessidades humanas.

Solitário por opção, gostava de admirar a natureza e, a despeito de tantas viagens, não esquecia Creta. Morreu em 1957, em Friburgo, na Alemanha, como conseqüência de uma crise de gripe contraída na China. Seu corpo foi enterrado em Iráklion, nome grego de sua cidade natal, oficializado após os cretenses conquistarem sua independência dos turcos. Em seu epitáfio está escrito “Não desejo nada, não temo nada. Sou livre”.

Até hoje sua obra é lembrada pelos gregos. Em Myrtiá, pequena vila perto de Creta, foi montado o Museu Kazantzákis. Em 1997, como homenagem aos 40 anos de sua morte, a Sociedade de Estudos Históricos Cretenses criou uma página na Internet (http://www.historical-museum.gr/kazantzakis/) dedicada a sua vida e obra.



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